O Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH) é um distúrbio neurobiológico que costuma aparecer ainda na infância. Quando não identificado e tratado nessa fase, os sintomas podem continuar na vida adulta, muitas vezes acompanhados de ansiedade, comportamentos impulsivos, dificuldades no trabalho e nos estudos, uso abusivo de álcool e outras substâncias, e depressão.

É importante lembrar que o diagnóstico do TDAH só pode ser feito por um médico psiquiatra, por meio de avaliação clínica e testes específicos. O objetivo deste texto é apenas informar você, paciente, sobre como o TDAH pode estar relacionado a dois problemas bucais bastante comuns: o bruxismo (ranger ou apertar os dentes) e a dor no rosto e na mandíbula, conhecida como disfunção temporomandibular (DTM).

Por que existe essa ligação?

Durante muito tempo, acreditou-se que a relação entre TDAH, bruxismo e dor facial acontecia só por causa dos medicamentos usados no tratamento. Hoje sabemos que a explicação é mais complexa e envolve pelo menos três fatores:

  1. Uma via biológica em comum. Pessoas com TDAH têm uma desregulação nas vias da dopamina — a mesma substância envolvida na atenção e no processamento da dor no cérebro. Isso pode deixar essas pessoas mais sensíveis à dor.
  2. Comportamento e sobrecarga muscular. Características típicas do TDAH, como inquietação, hiperatividade e impulsividade, podem levar a uma atividade muscular mais intensa e constante na região da face, sobrecarregando as articulações da face (ATM). É justamente esse “excesso de trabalho” muscular que favorece o aparecimento do bruxismo.
  3. Ansiedade, estresse e sono ruim. Pessoas com sintomas de TDAH apresentam, com mais frequência, dor na mandíbula, dores de cabeça, ansiedade, sintomas físicos de estresse (somatização), sono de pior qualidade e maior vigilância à dor — ou seja, mais atenção e preocupação com sensações dolorosas. Todos esses são fatores já conhecidos por contribuir para o bruxismo e para a DTM (dor na face).

O que os estudos mostram sobre bruxismo e TDAH

Crianças e adolescentes com TDAH têm cerca de 11 vezes mais chance de apresentar bruxismo de vigília (apertar os dentes durante o dia) e quase 3 vezes mais chance de apresentar bruxismo do sono (ranger os dentes à noite), quando comparados a quem não tem TDAH.

A ligação com o bruxismo de vigília parece mais direta: pessoas com TDAH tendem a ter mais ansiedade, sintomas físicos de estresse e percepção de estresse elevada — fatores diretamente associados ao apertamento dos dentes durante o dia.

Já a relação com o bruxismo do sono parece passar principalmente pela má qualidade do sono: dormir mal aumenta a chance de ranger os dentes à noite, e pessoas com TDAH costumam ter o sono mais fragmentado.

De forma geral, também sabemos — inclusive por estudos com a população em geral, não só com TDAH — que estresse e ansiedade estão ligados ao aparecimento tanto do bruxismo de vigília quanto do bruxismo do sono.

E a medicação, pode interferir?

O tratamento do TDAH é feito por uma equipe multiprofissional, e na maioria dos casos o uso de medicação é necessário e traz benefícios importantes. Ainda assim, é bom saber que alguns medicamentos comumente usados no tratamento podem, em algumas pessoas, estar associados ao bruxismo:

  • Estimulantes como o cloridrato de metilfenidato (Ritalina®, Concerta®) e sais mistos de anfetamina/lisdexanfetamina (Venvanse®) atuam sobre substâncias que estimulam o sistema nervoso e, em alguns pacientes, podem contribuir tanto para o bruxismo do sono quanto para o de vigília. Relatos de caso sugerem que o efeito pode se acentuar com doses mais altas, mas ainda são necessários mais estudos para confirmar essa relação com segurança.
  • Antidepressivos inibidores seletivos da recaptação de serotonina (fluoxetina, sertralina, paroxetina, entre outros), às vezes usados para tratar sintomas associados ao TDAH, como ansiedade e depressão, também têm sido associados ao bruxismo. A explicação proposta é que o excesso de serotonina pode reduzir a liberação de dopamina, substância envolvida no controle dos movimentos — e essa redução poderia favorecer o bruxismo. 

Isso não significa que a medicação deva ser suspensa por conta própria. Essa decisão cabe sempre ao médico psiquiatra, que avalia os benefícios e riscos de cada caso. O importante é você saber que esse é um efeito possível, para poder conversar abertamente com seu psiquiatra e seu dentista caso perceba sinais de bruxismo, como dor na mandíbula, dor de cabeça ao acordar ou desgaste nos dentes.

Se você tem TDAH e percebe sintomas como dor na mandíbula, dor de cabeça frequente, desgaste dos dentes ou sensação de tensão no rosto, vale a pena conversar tanto com seu psiquiatra quanto com um dentista. O cuidado conjunto entre essas duas especialidades pode ajudar bastante no controle dos sintomas e na sua qualidade de vida.

Sente sinais de bruxismo e tem TDAH? 

Agende uma avaliação — o cuidado em conjunto faz diferença.

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